O Ministério Público Federal
(MPF) no Amazonas denunciou 22 pessoas por envolvimento em um esquema criminoso
que possibilitou a prática de diversos atos de corrupção, fraudes e
irregularidades ambientais na Amazônia, descobertos a partir da Operação Arquimedes.
As investigações realizadas em conjunto com a Polícia Federal (PF) indicaram a
existência de verdadeiro balcão de negócios criminosos em torno da concessão e
fiscalização de planos de manejo florestal no Estado, com a participação de
servidores públicos do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam),
madeireiros, empresários e engenheiros florestais, entre outros.
As denúncias
Ao todo são dez – acusam os réus,
conforme suas participações individuais no esquema, pela prática dos crimes de
corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica e falsificação de laudo
ambiental em processo de licenciamento. As penas para os crimes de corrupção
variam de dois a 12 anos de prisão e, em razão de terem sido cometidos em
diversas situações, o MPF pediu a aplicação somada para cada situação criminosa
praticada pelos réus.
A partir das investigações realizadas para a deflagração da segunda fase da
Operação Arquimedes, em abril deste ano, identificou-se a existência de cinco
núcleos com tarefas e atividades diferenciadas, mas voltadas ao mesmo propósito
de viabilizar as fraudes em planos de manejo florestal e na documentação de
transporte da madeira extraída irregularmente de terras públicas federais,
incluindo unidades de conservação, assentamentos de reforma agrária e terras
indígenas.
Nas acusações apresentadas à Justiça, o MPF sustenta que o grupo dos servidores
públicos processados por corrupção – entre eles o então diretor jurídico Fábio
Rodrigues Marques e o ex-gerente de controle florestal do Ipaam, Antenor de
Melo Neto – impulsionava processos administrativos de empresários e madeireiros
participantes do esquema e autorizavam, mediante pagamento de propina e sem
qualquer análise e critério legal, pedidos de Planos de Manejo Florestal
Sustentável (PMFS) e de exploração florestal criminosa.
Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça durante a fase de investigações
mostraram que, em algumas situações, os analistas e técnicos do Ipaam
denunciados pelo MPF à Justiça criavam dificuldades e exerciam suas atividades
com lentidão proposital para, em um segundo momento, solicitar propina. Todos
eles foram presos durante a fase ostensiva da Operação Arquimedes II, em maio
deste ano.
De acordo com as denúncias, o grupo dos detentores de plano de manejo repassava,
de forma ilegal, créditos virtuais a madeireiras localizadas no sul do
Amazonas, fornecendo o “insumo” para as fraudes que resultaram em danos enormes
à floresta amazônica. Por sua vez, o grupo dos madeireiros, já de posse dos
créditos indevidos, emitia Documentos de Origem Florestal (DOFs)
ideologicamente falsos para acobertar o transporte e a comercialização de
madeira sem origem legal.
As ações penais do MPF ressaltam ainda que o grupo de investigados relacionados
exercia funções diversas, interagindo, praticando ou facilitando a prática
criminosa dos demais atores da multifacetada organização criminosa. Já o grupo
formado por engenheiros florestais utilizava de seu conhecimento técnico e
proximidade com o Ipaam para elaborar e aprovar os planos de manejo e outros
documentos fraudulentos. Em várias situações, dizem as denúncias, esses
profissionais atuaram como intermediadores e operadores técnicos e/ou
financeiros entre o setor empresarial e o setor público, mediante negociações,
ajustes e pagamentos de propinas.
O MPF denunciou também, em uma das ações, o ex-superintendente do Ibama no
Amazonas José Leland Juvêncio Barroso, pelos crimes de organização criminosa e
‘lavagem de madeira’. Ele é acusado não só por ignorar o alerta de possível
irregularidade em enorme carga de madeira abrigada em dois portos de Manaus
como também por tentar interferir ilegalmente em favor da liberação dessas
cargas irregulares, apreendidas durante a primeira fase da Operação Arquimedes,
em dezembro de 2017. Durante a segunda fase da operação, em abril deste ano,
Leland Barroso foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de fogo.
Na denúncia, o MPF sustenta que o ex-superintendente do Ibama mantinha
verdadeira “parceria criminosa” com o ex-superintendente do Ibama no Acre,
Carlos Gadelha, preso na Operação Ojuara e processado por diversos crimes
também ligados a fraudes em documentos de fiscalizações ambientais no Amazonas
e atos de corrupção. A partir de diálogos identificados por meio de
interceptações telefônicas e telemáticas, o órgão afirma ter constatado forte
ligação de Leland Barroso com membro da classe política do Amazonas, com o qual
tratava sobre a liberação de madeireiras irregulares no interior do Estado e
chegou a pedir apoio político para continuar no cargo após sua exoneração, no
início deste ano.
Página especial – As íntegras e os números das ações para consulta
processual na Justiça Federal, bem como todas as notícias já divulgadas pelo
MPF, infográficos e um resumo geral do caso decorrente da Operação Arquimedes
agora estão reunidas em uma página
especial lançada pelo órgão nesta terça-feira (25), na ocasião da
apresentação das primeiras ações penais.
O procurador da República Leonardo de Faria Galiano, responsável pela condução
da peração no MPF, ressaltou que a nova página vai permitir, tanto aos cidadãos
como aos órgãos públicos e entidades interessadas na temática, o acompanhamento
contextualizado dos principais desdobramentos e resultados da Operação
Arquimedes.
A página especial traz seções como “Entenda o caso”, com texto, fotos e
infográficos que explicam todo o desenrolar das investigações, prisões,
tratativas para aprimoramento da gestão dos órgãos ambientais envolvidos e
atuações do MPF junto a órgãos de cooperação internacional para garantir a
eficácia da operação também junto a países que compraram por anos, sem
conhecimento, madeira ilegalmente extraída da Amazônia.
A navegação pelo site também oferece um quadro atualizado com todas as ações
cíveis e penais já apresentadas à Justiça pelo MPF, indicando respectivos
números, crimes e situações envolvidas, pessoas processadas e link para acesso
à íntegra dos documentos, além de uma linha do tempo contendo a indicação
resumida dos principais momentos que marcaram o desenrolar da operação.
Operação Arquimedes – A Operação Arquimedes foi iniciada a partir de
alerta emitido pela Receita Federal e Ibama, em 2017, ao verificar aumento
incomum do trânsito de madeira pelo Porto Chibatão. A administração do porto
informou que a única fiscalização que estava sendo realizada nos contêineres
que ali transitavam era a análise de notas fiscais, embora houvesse ciência de
que carregamentos de madeira devem estar sempre acompanhados do Documento de
Origem Florestal (DOF), a ser mantido e averiguado por todos aqueles que
transportam, guardam ou servem como depositários de cargas de madeira.
Nas duas fases já realizadas até o momento, a operação resultou na apreensão de
milhares de metros cúbicos de madeira ilegal de mais de 60 empresas em portos
de Manaus e no cumprimento mandados de prisão temporária e preventiva de
dezenas de pessoas. Em maio deste ano, o MPF ajuizou a primeira ação civil
pública decorrente do caso, contra a empresa de exploração e comércio de
madeira Amata S/A e seus sócios-administradores, pela prática de graves danos
ambientais à floresta amazônica brasileira.